Domingo, 15 de Junho de 2008

Porque esta semana se comemora o 120º aniversário do génio Fernando Pessoa e para os amantes do mesmo, deixo a sugestão deste domingo:

 

O Sanatório de Cascais

Miguel Viqueira

(Ambar)

 

 

Neste livro estamos tão perto de Pessoa como, provavelmente, nunca imaginámos. António Nogueira é um professor que vive uma existência monótona e desinteressante, dedicando também grande parte do seu tempo à escrita de poesia e à habitual passagem por vários conhecidos cafés lisboetas.

É num desses cafés que se começa a sentir observado, perseguido, por uma figura caricata, difícil de esquecer e que não lhe é absolutamente estranha. Há qualquer coisa naqueles aros metálicos e oculares, naquele nariz pontiagudo que o faz estremecer...

Imagine-se a surpresa de Nogueira quando percebe que se trata de uma reencarnação de Pessoa. Na verdade, desde que morreu, o génio da poesia continua atormentado com a sensação de uma existência inacabada na arte de escrever. Escreveu tudo o que devia, mas não cumpriu a sua última grandiosa missão: escrever o grande romance da sua geração.

Não podendo descansar sem acabar esta tarefa e estando presente apenas em espírito, resta-lhe incumbir alguém de tão grandiosa missão. E o escolhido é o poeta Nogueira.

Inicialmente estupefacto e incrédulo, depois céptico quanto à arte romancista, Nogueira e Pessoa vão viver extraordinários momentos, à medida que trabalham em conjunto na construção desta última ambição.

O livro é um puro deleite, traz-nos Pessoa naquilo que tem de mais genuíno, a sua genialidade, o seu temperamento, a sua determinação e, por vezes, até mesmo o seu egoísmo... Um dos melhores livros da minha vida. Recomendado a todos em geral, aos apaixonados de Pessoa em particular.

“ – Nunca esperei gozar a vida – prosseguiu Pessoa. – Só quis torná-la grande, ainda que para isso tivesse de ser o meu corpo (e a minha alma) a lenha desse fogo. Só quis torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso tivesse de a perder como minha. Sempre pensei assim, e cada vez mais assim penso, a ponto de ter voltado ao seu mundo dos vivos, Nogueira. E cada vez mais ponho na essência anímica do meu sangue o propósito impessoal de engrandecer a nossa pátria e contribuir para a evolução da humanidade: é esta a forma que em mim tomou o misticismo de Portugal… Por tudo isso voltei, Nogueira, porque me falta essa peça-chave que ensamble todas as partes da minha obra, que a unifique e lhe confira sentido, o sentido e a missão que lhe faltaram até agora para que se cumpra cabalmente o meu Destino na terra…”

 

P.S. Obrigada Carolina.



publicado por Dreamfinder às 23:00
Quarta-feira, 01 de Agosto de 2007

"Nunca esperei gozar a vida - prosseguiu Pessoa. - Só quis torná-la grande, ainda que para isso tivesse de ser o meu corpo (e a minha alma) a lenha desse fogo. Só quis torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso tivesse de a perder como minha.

Sempre pensei assim, e cada vez mais assim penso, a ponto de ter voltado ao seu mundo dos vivos, Nogueira. E cada vez mais ponho na essência anímica do meu sangue o propósito impessoal de engrandecer a nossa pátria e contribuir para a evolução da humanidade: é esta a forma que em mim tomou o misticismo de Portugal… Por tudo isso voltei, Nogueira, porque me falta essa peça-chave que ensamble todas as partes da minha obra, que a unifique e lhe confira sentido, o sentido e a missão que lhe faltaram até agora para que se cumpra cabalmente o meu Destino na terra…"

Miguel Viqueira in O Sanatório de Cascais



publicado por Dreamfinder às 22:11
Sábado, 21 de Julho de 2007

 

"... a profecia sagrada, a alma oculta da nação, cumpria-se por fim, el-rei D.Sebastião, tão longa e dolorosamente desejado, voltava à sua terra, ao seu trono espiritual. Fizera-o numa manhã de nevoeiro rio acima vindo do mar, pisara a sua terra sob um sol esplêndido e brilhante que vencera para sempre o nevoeiro, símbolo de ausência, e agora caminhava por entre as aclamações dos seus súbditos, loucos de júbilo. (...)

«Permiti-me, Majestade, que vos apresente a vossa Corte mais íntima, que vos fará reinar para sempre nesse trono que ora ocupais.»

O Rei assentiu e olhou-os nos olhos um por um, com um olhar limpo e profundo que os fez estremecer em silêncio. (...) indicou ao primeiro que avançasse. Assim o fez. Após uma longa reverência, falou: «Sou Fernando, o Supra-Camões, ao vosso serviço, Senhor.»

«E Luíz Vaz, onde está?»

«Morreu na miséria enquanto vos esperava.»

O Rei manteve o silêncio. Avançou o segundo. Vestido como o primeiro, com um fato escuro mas de gravata e monóculo, após uma vénia menos prolongada, apresentou-se: «Sou Álvaro de Campos, engenheiro naval por Glasgow e poeta sensacionista, embora alguns teimem em dizer-me modernista. Foi minha a ideia de vos fazer regressar na Torre-Nau de Belém, e aqui estou, ao vosso serviço.»

Os olhos claros do Rei abriram-se: «Como conseguiste fazê-lo?»

«Usando a imaginação, Senhor, a arma invencível que a partir de hoje vos fará reinar para sempre.»

O Rei sorriu e disse: «Não podias ter tido melhor ideia, dou-te os meus parabéns.»

Álvaro voltou-se para o seguinte, indicando-lhe que chegara a sua vez, com um sorriso irónico e um laivo de malícia no olhar.

«Sou o doutor Ricardo Reis, médico, latinista e poeta neoclássico, embora haja quem teime em chamar-me arcádico. Vim do Brasil para vos esperar e ocupar-me-ei da vossa saúde, física», e, olhando para Álvaro, «e mental.»

O Rei inclinou levemente a cabeça, assentindo e saudando. Aproximou-se por último um personagem mudo, pobremente vestido com asseio e simplicidade, de colete preto sobre a camisa imaculada, rosto curtido, um pouco pálido, e olhar diáfano, um azul de criança que não se cansou de olhar, cabelo liso e curto, de um louro-cinza. Ajoelhou e o Rei, com um gesto, mandou-o soerguer-se.

«Sou Alberto Caeiro, mestre, segundo dizem, destes três, a quem ensinei tudo menos a ser aquilo que são. Venho do campo e para vos trazer o campo a este palácio. Servir-vos-ei o mais lealmente que puder e procurarei ensinar-vos a ver as coisas, a individualidade secreta, perene e universal das coisas. Se conseguir que olheis para uma pedra e digais sem vacilar "é uma pedra", terei ganho a batalha do tempo e terá valido a pena tão longa espera.» (...)

«Esta é a vossa corte, Majestade, o vosso círculo íntimo, que servirá de suporte vital ao vosso reinado espiritual e, portante, imorredouro. Em nós achareis a força e a inspiração que fará do vosso trono o único, universal e perpétuo. Bem-vindo sejais, Senhor, e que o vosso reinado seja tudo quanto a Humanidade inteira necessita.»

As últimas palavras do lugar-tenente ecoaram pelos cantos e pelos móveis sóbrios do alto salão, que não tardariam a ser o centro e o motor do palpitar intelectual da Humanidade, no qual o sol penetrava filtrado pelas vidraças policromadas, produzindo um feixe de luz difusa de cores nobres."

Miguel Viqueira in O Sanatório de Cascais

 

 



publicado por Dreamfinder às 11:08
“Um leitor é sempre um estudante do mundo.” Deborah Smith
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