Porque esta semana se comemora o 120º aniversário do génio Fernando Pessoa e para os amantes do mesmo, deixo a sugestão deste domingo:
O Sanatório de Cascais
Miguel Viqueira
(Ambar)

Neste livro estamos tão perto de Pessoa como, provavelmente, nunca imaginámos. António Nogueira é um professor que vive uma existência monótona e desinteressante, dedicando também grande parte do seu tempo à escrita de poesia e à habitual passagem por vários conhecidos cafés lisboetas.
É num desses cafés que se começa a sentir observado, perseguido, por uma figura caricata, difícil de esquecer e que não lhe é absolutamente estranha. Há qualquer coisa naqueles aros metálicos e oculares, naquele nariz pontiagudo que o faz estremecer...
Imagine-se a surpresa de Nogueira quando percebe que se trata de uma reencarnação de Pessoa. Na verdade, desde que morreu, o génio da poesia continua atormentado com a sensação de uma existência inacabada na arte de escrever. Escreveu tudo o que devia, mas não cumpriu a sua última grandiosa missão: escrever o grande romance da sua geração.
Não podendo descansar sem acabar esta tarefa e estando presente apenas em espírito, resta-lhe incumbir alguém de tão grandiosa missão. E o escolhido é o poeta Nogueira.
Inicialmente estupefacto e incrédulo, depois céptico quanto à arte romancista, Nogueira e Pessoa vão viver extraordinários momentos, à medida que trabalham em conjunto na construção desta última ambição.
O livro é um puro deleite, traz-nos Pessoa naquilo que tem de mais genuíno, a sua genialidade, o seu temperamento, a sua determinação e, por vezes, até mesmo o seu egoísmo... Um dos melhores livros da minha vida. Recomendado a todos em geral, aos apaixonados de Pessoa em particular.
“ – Nunca esperei gozar a vida – prosseguiu Pessoa. – Só quis torná-la grande, ainda que para isso tivesse de ser o meu corpo (e a minha alma) a lenha desse fogo. Só quis torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso tivesse de a perder como minha. Sempre pensei assim, e cada vez mais assim penso, a ponto de ter voltado ao seu mundo dos vivos, Nogueira. E cada vez mais ponho na essência anímica do meu sangue o propósito impessoal de engrandecer a nossa pátria e contribuir para a evolução da humanidade: é esta a forma que em mim tomou o misticismo de Portugal… Por tudo isso voltei, Nogueira, porque me falta essa peça-chave que ensamble todas as partes da minha obra, que a unifique e lhe confira sentido, o sentido e a missão que lhe faltaram até agora para que se cumpra cabalmente o meu Destino na terra…”
P.S. Obrigada Carolina.
